Folia de Reis

Folia de Reis é uma manifestação cultural, folclórica, social e religiosa que reproduz a peregrinação dos Três Reis Magos desde o seu país de origem, até o encontro com o Menino Jesus numa manjedoura em Belém. 

A adoração dos reis a Jesus, após uma longa caminhada que levou 12 dias, chegando no dia 6 de janeiro, simboliza a submissão e o reconhecimento das Nações, e de seus soberanos, da divindade de Cristo. 

Assim, o dia 6 de janeiro é o Dia dos Três Reis Magos, ou da Folia de Reis. Diz a tradição que, quando os três Reis Magos, Gaspar, Melchior (ou Belchior) e Baltazar, viram a Estrela de Belém no céu, foram ao encontro de Jesus que havia nascido. Ofereceram ao Menino Jesus, como presente, ouro, incenso e mirra, que simbolizavam a realeza, a divindade e a imortalidade. Segundo a tradição, um era negro, o outro branco e o terceiro moreno, representando toda a humanidade. Muitos países celebram a data, e a Folia de Reis é comemorada de modo particular em cada região do Brasil.

Revestida dessa importância, o culto aos reis Magos proliferou-se por muitos países, mas foi apenas no século III que eles receberam o título de reis, e 800 anos depois do nascimento de Jesus, eles ganharam nomes e locais de origem: Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia; e Baltazar, rei da Arábia. 

Na catedral de Colônia, na Alemanha, repousam os restos dos reis magos. De acordo com uma tradição medieval, eles teriam se reencontrado quase 50 anos depois do primeiro Natal, em Sewa, uma cidade da Turquia, onde viriam a falecer. Mais tarde, seus corpos teriam sido levados para Milão, na Itália, onde permaneceram até o século 12, quando o imperador germânico Frederico dominou a cidade e trasladou as urnas mortuárias para Colônia. 
 
ORIGEM 
Na tradição católica, a passagem bíblica em que Jesus foi visitado por reis magos, converteu-se na tradicional visitação feita pelos três "Reis Magos", os quais passaram a ser referenciados como santos a partir do século VIII.

Essa manifestação cultural era realizada em toda a Península Ibérica e era comum a ocorrência de doação e recebimento de presentes enquanto eram entoados cantos e danças nas residências da época. Baseado nessa argumentação, a Folia de Reis teria vindo ao Brasil no século XVI, cerca do ano de 1534, trazido pelos Jesuítas, e servindo como um instrumento na catequização dos índios e, posteriormente, dos negros escravos.

Fixado o nascimento de Jesus Cristo a 25 de dezembro, adotou-se a data da visitação dos Reis Magos como sendo o dia 6 de janeiro que, em alguns países de origem latina, especialmente aqueles cuja cultura tem origem espanhola, passou a ser a mais importante data comemorativa católica, mais importante, inclusive, que o próprio Natal. 

Portanto, a tradição da “Folia de Reis” chegou ao Brasil por intermédio dos portugueses, ainda no período da colonização. Na cultura tradicional brasileira, os festejos de Natal eram comemorados por grupos que visitavam as casas tocando músicas alegres em louvor aos "Santos Reis" e ao nascimento de Cristo; essas manifestações festivas estendiam-se até a data consagrada aos Reis Magos, 6 de janeiro. Trata-se de uma tradição originária de Espanhola que ganhou força especialmente no século XIX e mantém-se viva em muitas regiões do país, sobretudo nas pequenas cidades dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro, Goiás, dentre outros.

Enfim, a maioria dos estudos atribui origem Europeia às folias, talvez relacionadas às “Jornadas de Pastorinhas”, meninas-moças que no período litúrgico do Natal percorriam as casas pedindo esmolas com finalidades assistenciais, usando a música como pedido e agradecimento.

O eixo central da Folia de Reis é a viagem Epifânica realizada pelos magos do Oriente. Tendo à frente uma bandeira com a estampa dos Santos Reis (que também é chamada de guia), os foliões passam de casa em casa, revivendo a caminhada dos magos que partiram do Oriente rumo à cidade de Belém em busca do Menino-Deus. Os foliões repetem esse caminho, referendados pelo texto do evangelista Mateus (Mt 2, 1-2). Intimamente ligada às festas do Ciclo de Natal, as Folias de Reis são comemorações de cunho católico. Suas origens acompanham as referências traçadas para festas natalinas, sendo o dia 06 de janeiro escolhido como o dia em que se comemora a primeira manifestação de Jesus Cristo aos gentios, representados pelos reis magos, e a manifestação de sua divindade. 

No Brasil, trazendo consigo traços absorvidos em constantes reinterpretações das diversas culturas que se cruzaram e se cruzam em nossa terra, a Folia de Reis carrega caracteres das nações europeias, nossas colonizadoras, do catecismo dos jesuítas, da cultura indígena, e da cultura negra aqui escravizada, estabelecendo assim, relações com toda mescla étnica e cultural que deu origem às identidades do povo brasileiro e seus costumes. 
 
EVOLUÇÃO
No Brasil a visitação das casas é feita por grupos organizados, muitos dos quais motivados por propósitos sociais e filantrópicos. Cada grupo, chamado em alguns lugares de Folia de Reis, em outros Terno de Reis, é composto por músicos tocando instrumentos, em sua maioria de confecção caseira e artesanal, como tambores, reco-reco, flauta e rabeca (espécie de violino rústico), além da tradicional viola caipira e do acordeão, também conhecida em certas regiões como sanfona, gaita ou pé-de-bode.

Na formação de uma Companhia de Reis, não existe uma regra definitiva para a quantidade de membros, mas costumam ser composta por grupos de 8 a 12 pessoas. Cada folião tem seu lugar e ocupa uma hierarquia em cujo topo aparece o Capitão, que organiza e se responsabiliza pelo grupo. Os Alferes têm como função carregar a Bandeira e receber as esmolas durante as jornadas, e os Foliões com seus instrumentos sanfona, reco-reco, caixa, pandeiro, chocalho, viola, violão, entre outros instrumentos, são a “orquestra” das Folias. Em certos grupos aparece ainda a figura do Palhaço. 

As Folias de Reis da atualidade preservam os elementos de sua origem que remontam às denominadas epifanias – Festividade religiosa comemorativa da aparição ou manifestação Divina. Nelas estão incluídos os festejos pela passagem bíblica que relata a visita dos três Reis Magos ao filho de Deus. Em suas origens não havia data específica para essas comemorações que aconteciam em diferentes momentos. A unificação do calendário cristão foi feita pelo Papa Julio I, em 367 d.C. que fixou a data de 25 de dezembro para a festa do nascimento de Cristo e dia 6 de janeiro para celebração e adoração dos Reis Magros. No Brasil a área de maior incidência dessas comemorações, tem sido a região Sudeste.

Geralmente, os grupos de Folias de Santos Reis têm uma unidade ritual autônoma. Não estão submetidos à orientação da Igreja institucional, ocorre fora dos seus templos. Mesmo que um grupo inspire-se num outro já existente, dificilmente se vê unidade de rito e significações, isso porque os códigos de relações, as normas, a estrutura da festa e o imaginário vão sendo construídos entre os homens e mulheres da própria Companhia, mediada pela experiência vivida no cotidiano. É por isso que, apesar de terem um único eixo, elas se diferenciam no ritual, nas construções simbólicas e nos papeis desempenhados por seus foliões.

Entre os vários ritos numa Folia de Reis incluem-se:
Ritos de chegada a uma casa: Momento em que a Companhia consulta o dono da casa para confirmar se aceita a visita de Santos Reis.  Assim que entram é feita a entrega da bandeira ao dono para que possa circular a bandeira pelos cômodos da casa como forma de abençoá-la. 
Ritos de louvação: Início da cantoria na porta da casa pedindo licença para entrar. Já em casa há os cantos de louvação aos moradores. Após a louvação os cantos agora trazem o pedido de esmolas, e após recebida, há o canto de agradecimento, seguido pelo canto da retirada da Folia. 
Ritos num encontro de Folia: Quando ocorre o encontro entre duas Folias, há uma saudação especial à bandeira, onde cada integrante de um grupo beija a bandeira do outro grupo. Além da bandeira há os cantos de saudação e retirada. 
Ritos diante de um Presépio: Todas as Companhias de Reis fazem saudações especiais diante de um presépio, de submissão e adoração, acompanhado de orações em forma de canto. Se houver mais de um presépio em um espaço, todos serão louvados, por todas as Companhias que por ali circularem. 
Ritos para a festa de encerramento: Na festa de encerramento da peregrinação das Folias é o momento de grandes celebrações. Os Foliões fazem saudações aos Arcos que enfeitam as portas da casa, e louvação e agradecimento ao dono da casa (geralmente o Festeiro). Eles fazem a “reza do terço” de forma cantada, e no seu final começam os rituais de louvação e agradecimento, e entrega da doutrina com a coroação dos festeiros do próximo ano.
 
SÍMBOLOS
A Bandeira representa a Guia. Das suas cinco cores o Azul representa o manto que Nossa Senhora e Vermelho representa o Divino Espírito Santos. As outras três cores são alusivas à cor dos três presentes: Amarelo do ouro, Branco da resina do incenso, Verde das folhas que se faz a mirra. 

Cantoria é a oração da folia e seus versos religiosos narram a viagem dos magos, a chegada da Bandeira e a história de Cristo. Inicialmente o Capitão tira os versos que são repetidos pelo coro: as segunda e terceira vozes realizam a primeira resposta integral da cantoria, também conhecida entre eles como contrato, as quartas e quintas vozes entram na metade dos versos cantando uma oitava acima, e no final, entra a sexta (ou requinta) voz, num grito muito fino também chamado Tala. 

Flores e fitas enfeitam os instrumentos, e no violão as rosas representam bênção de Deus. Toalha branca que todos os foliões trazem sobre o ombro, é como uma farda para ser reconhecido durante as andanças. Ela revela que os foliões têm uma missão a cumprir.
O Palhaço, segundo algumas lendas, tem como função proteger o Menino Jesus confundindo os soldados de Herodes. 
 
FOLIA DE REIS EM UBERABA
Em Uberaba a tradição das Folias de Reis acompanha a história da cidade, com Companhias que existem há mais de 140 anos, e um registro de 160 Companhias de Reis. O Festival de Folias surgiu no ano de 1958 por iniciativa da dupla Toninho e Marieta sendo realizado todos os anos desde então.   
Os rituais das Folias de Reis na cidade transformaram-se na maior manifestação de cultura popular, motivo que torna Uberaba a capital da Folia de Reis. 
As Folias de Reis de Uberaba se organizam sob a liderança do Capitão da Folia cumprindo rituais tradicionais, entoando canções sobre temas religiosos. No período compreendido entre 24 de dezembro até 6 de janeiro percorrem a cidade cantando de casa em casa em busca de oferendas. Ao contrário dos Reis da tradição, o propósito da folia não é o de levar presentes, mas de recebê-los. O que é arrecadado é utilizado no dia de Reis, o dia da festa de cada grupo, considerado o Dia da Gratidão. 
E assim sobrevivendo à evolução industrial, resistindo ao processo de globalização e ao poder com que atua a indústria cultural nos meios de comunicação de massa, o ritual das Folias de Reis se estabeleceu no calendário cultural da cidade.
 
INVENTÁRIO E SALVAGUARDA
No dia 27 de abril de 2014 foi realizado em Uberaba, no bairro rural da Baixa, o 57º Encontro de Folia de Reis, quando foi feito o lançamento do processo de inventário das Companhias de Santos Reis pela presidente da Fundação Cultural de Uberaba, Sumayra Oliveira, e pela coordenadora do Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba (Conphau), Maria Aparecida Rodrigues Manzan, com objetivo de fazer o registro e catalogação das companhias de Santos Reis, São Sebastião e Divino Espírito Santo existentes em Uberaba.
Uberaba irá sediar um movimento nacional em defesa e salvaguarda desta manifestação de cultura popular. As Folias de Reis deverão ser inscritas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no patrimônio imaterial do Brasil.
As Folias de Reis são consideradas patrimônio imaterial e Uberaba é uma cidade privilegiada, por ter mais de 160 companhias de Santos Reis. Para manter viva esta tradição, contribuir para a preservação da memória e valorização e reconhecimento da cultura local é que a Fundação Cultural e o Conphau irão catalogar e registrar todos os ternos do município, dentro do projeto Canto e Encanto das Folias de Reis.
Através desta catalogação será identificado o número de companhias de Santos Reis, São Sebastião e Divino Espírito Santo existentes em Uberaba. Com o trabalho será estimulado o intercâmbio entre foliões e mestres das Folias de Santos Reis e proporcionar uma fonte de consulta e reflexão sobre a cultura popular, tomando a música e o som das Folias de Santos Reis como elemento privilegiado.
Também será produzido um CD de áudio mapeando os diferentes gêneros musicais presentes nas folias, como cantos, toques de viola, rezas cantadas, e confeccionados livros sobre o tema. Estão previstas, ainda, a exposição das fotografias coletadas, de instrumentos e bandeiras das Folias de Reis e elaboração do dossiê de registro das Folias de Santos Reis de Uberaba e de livros. 

Catira

É uma dança do folclore brasileiro cujo ritmo musical é marcado pela batida dos pés e mãos dos dançarinos, típica do interior do Brasil, principalmente na área de influência da cultura caipira como São Paulo, Goiás e Minas Gerais.    
       
O acompanhamento é feito especialmente por violas, geralmente duas. Os violeiros, os únicos que cantam, fazem parte da dança e dirigem a coreografia. É executado sobre um tablado, ou em salas assoalhadas, para realçar o som dos sapateados, mas dança-se até em terra de chão batido. 

A dança é muito chamativa devido ao seu vigor e sincronicidade.  Compõe-se de palmateios e sapateios ritmados executados pelo catireiros em duas fileiras – uma em frente à outra, formando pares. A coreografia do Catira é quase sempre fixa, havendo poucas variações de uma região para outra. Normalmente é apresentada com dois violeiros e de oito a dez dançadores.
 
ORIGEM
A catira ou cateretê é uma dança genuínamente brasileira. Ninguém sabe ao certo a verdadeira origem dessa dança, alguns acreditam que foi uma mistura de várias culturas como a africana, espanhola, indígena e portuguesa. Mas outras acreditam que foi uma forma encontrada pelos jesuítas para melhor entrosamento com os índios. Alguns autores acreditam que a origem do Catira é indígena sendo uma dança muito utilizada pelos padres jesuítas, na época da colonização, para facilitar o entrosamento entre brancos e índios. Outros autores acreditam que ele veio da África, e outros ainda que veio  da Espanha, ou Portugal.

Caroline de Miranda Borges, emO povo brasileiro e a catira” realizou um estudo, em 2009, que apresenta as possíveis influências que cada um destes povos pode ter representado no desenvolvimento da catira, fazendo um apanhado histórico das contribuições tupi, lusitana, espanhola e africana. Complementando este estudo, Alceu Araújo encontrou em suas pesquisas diversas semelhanças entre a catira e outras manifestações como o “bate-pé, racha-pé, sapateado, cateretê mineiro, fandango” (em “Festas”, “Bailados” e “Mitos e Lendas”, 1964, p. 121). Assim, pode-se perceber a linha tênue que existe entre as diversas manifestações brasileiras, bem como a sua miscigenação, o que destaca a dificuldade de delimitar onde começa uma e termina a outra.

Diversos autores nos contam que a catira no Brasil é conhecida desde os tempos coloniais e que o padre José de Anchieta, entre os anos de 1563 e 1597, a inclui nas festas de São Gonçalo, de São João e de Nossa Senhora da Conceição. O certo é que a Catira adquiriu características de vários grupos que vieram para o Brasil, tornando-se hoje uma dança genuinamente brasileira com raízes sertanejas. 
 
APRESENTAÇÃO DO CATIRA
O aprendizado dos dançadores de catira vem da infância, com as crianças acompanhando os adultos. Enquanto os mais novos dançavam “roda morena”, os mais velhos e casados, dançavam o Catira, que inicialmente era uma dança só de homens.

A figuração se desenvolve só com o acompanhamento das Violas, com os dançadores em frente um ao outros dispostos em fila. Começam os sapateados e palmas, geralmente no início e no final da função. Os figurantes trocam de lugares com os pares, o que, segundo Romeu Borges, tem o significado de saudação aos presentes. 

Assim como os violeiros dirigem a coreografia de acordo com o repique de suas violas, os “puxadores de palmas”, geralmente os dois primeiros catireiros que ficam ao lado dos violeiros, determinam para os companheiros qual o ritmo do sapateado, ou palmas, a ser executados. Antigamente eram conhecidos como “chaveeiro”, termo que corresponde na linguagem rural aos “bois da chaveia”, ou seja, os que comandam o movimento.

Na ponta ou na “ourela” ficam também sempre dois catireiros mais adestrados que tem a função de manter a cadência e o ritmo das palmas, dos sapateadores e da coreografia. 
 
EVOLUÇÃO
 
A Catira em algumas regiões é executada exclusivamente por homens, organizados em duas fileiras opostas. Na extremidade de cada uma delas fica o violeiro que tem à sua frente a sua “segunda”, isto é, outro violeiro ou cantador que o acompanha na cantoria, entoando uma terça abaixo ou acima. O início é dado pelo violeiro que toca o “rasqueado”, toques rítmicos específicos, para os dançarinos fazerem a “escova”, bate-pé, bate-mão, pulos. Prossegue com os cantadores iniciando uma moda viola, com temática variada em estilo narrativo, conforme padrão deste gênero musical autônomo. Os músicos interrompem a cantoria e repetem o rasqueado. Os dançarinos reproduzem o bate-pé, bate-mão e os pulos. Vão alternando a moda e as batidas de pé e mão. O tempo da cantoria é o descanso dos dançarinos, que aguardam a volta do rasqueado.

Acabada a moda, os catireiros fazem uma roda e giram batendo os pés alternados com as mãos: é a figuração da “serra abaixo”, terminando com os dançarinos nos seus lugares iniciais. O Catira encerra com Recortado: as fileiras, encabeçadas pelos músicos, trocam de lugar, fazem meia-volta e retornam ao ponto inicial. Neste momento todos cantam uma canção, o “levante”, que varia de grupo para grupo. No encerramento do Recortado os catireiros repetem as batidas de pés, mãos e pulos.
 
A MODA  
No começo da apresentação do Catira, os violeiros cantam versos em homenagem aos donos da festa, ou a alguém de importância que esteja presente. Terminada a saudação os violeiros repicam suas violas e tem início o sapateado acompanhado de palmas. O tema é variado e normalmente conta uma história. É o que os catireiros chamam de “Moda”, que depois de iniciada, não sofre interrupções. Somente no último verso é que há o trespasse e novamente são repicadas as violas para que sejam executadas as últimas evoluções. Dependendo do tema pode ter duração de 3 a 20 minutos. 
 
O RECORTADO
O Recortado contrasta com a Moda pela sua vivacidade e maior movimento. Costuma ligar-se ao Catira como fase conclusiva, ou suceder a ele. 
A coreografia se desenvolve com o canto, ou apenas entre os versos, cinco a seis sílabas o que dá a todos um ar exaltante. As fileiras, encabeçadas pelos músicos, trocam de lugar, fazem meia-volta e retornam ao ponto inicial. Neste momento todos cantam uma canção, o “levante”, que varia de grupo para grupo. No encerramento do Recortado os catireiros repetem as batidas de pés, mãos e pulos.
 
CATIRA EM UBERABA
Em Uberaba as notícias mais antigas do Catira vêm do século XIX e apareceram no Jornal Lavoura e Comércio em 31 de agosto de 1902, com a descrição de uma festa na qual está presente um violeiro, que empunhado a viola, dedilhava e soltava a voz, numa toada chorosa. 
 
A hora que o galo canta
Vesperando o amanhecer
A gente também se levanta
E procura o que fazer
Na roça tudo se planta
Tem fartura pra comer
Bom almoço, boa janta
E sossego pra viver
 
Na década de 70, o empresário Gilberto Resende passou a realizar, na sua chácara, denominada Casa do Folclore, apresentações do Catira, atividade que desenvolveu, gratuitamente, por mais de 15 anos. Durante este período mais de 20 mil pessoas tiveram acesso a essa tradição. Seu estímulo era realizar ações que mantivessem vivo o folclore em nossa cidade. 

Seu empenho incentivou a Secretaria de Educação a criar o ensino do Catira em algumas escolas municipais, atividades que foram realizadas na década de 90. Durante os anos de 2002 a 2005 a Fundação Cultural de Uberaba também contou com a presença do professor de Catira, o saudoso Sr. Manoel Teles. Dos seus ensinamentos surgiram dois grupos de Catira formado por seus alunos, que hoje perpetuam as lições que aprenderam com este grande mestre e as transformam em belos espetáculos de Catira. 

Atualmente existem em Uberaba alguns grupos atuantes.
Catira dos Borges, formado por membros de uma mesma família, é um dos mais antigos. A técnica vem sendo ensinada de pai para filho há mais de meio século. Seu treinamento começa cedo, todas as crianças são convidadas a participar, a conviverem com a dança. Dizem que quando se chega à casa de um Borges é obrigatório tocar a campainha, pois se a pessoa bater palmas na porta, um Borges responde batendo os pés dentro da casa. A brincadeira, na verdade, reflete o envolvimento da família com esta tradição. Comandada por Romeu Borges, que nasceu com o ritmo no coração e que conhece as histórias dos primeiros grupos que fizeram a tradição no Triângulo Mineiro.
Grupo de Catira do Paulinho Leiteiro, tradicional na cidade há mais de 20 anos, é misto, composto por pessoas da sua família, onde as filhas têm lugar garantido. Paulinho é além do violeiro, o coordenador do grupo.  Grupo de Catira Raízes – Tradição Manoel Teles, que começou em 1999 e é coordenado por Andre Medeiros, ex-aluno de Manoel Teles, que incentivou a formação da turma, e o aprendizado dos novos membros. O grupo levou o nome de Uberaba a diversos estados através de apresentações em festivais e eventos diversos. Estando em constante treinamento, eles levam a tradição ao pé da letra. Com 15 anos, o grupo comemora com uma grande vitória: o troféu de melhor grupo do Estado de Minas no 2º Festival Nacional de Catira de Uberaba. Apresentando um recortado bem mineiro, é possível ver as características da região no ritmo e palmeado do grupo. 
Grupo de Catira Tradições de Minas, coordenado por Wosley Torquato, que começou por incentivo do professor Manoel Teles, que lhe “passou a responsabilidade”. Torquato está preocupado em manter e perpetuar o catira, por isso seu grupo tem pessoas de todas as idades. Os catireiros do grupo seguem persistentes para o desenvolvimento de mais participantes, garantindo o futuro da tradição.
Grupo de Catira Revelação, composto por seis catireiros e dois violeiros: Negrinho e Vinícius Teles, e foi formado há pouco mais de dois anos. Herdeiros do talentoso pai Manoel Teles. No ano de 2013, com apenas um ano de formação, o Grupo foi o grande campeão no 2º Festival Nacional de Catira de 2013. Os irmãos Teles são filhos de Manoel Teles, violeiro e compositor bastante conhecido na região, e que foi professor de Catira na Fundação Cultural de Uberaba. Os irmãos começaram cedo a acompanhar o pai na viola e no catira, e hoje transmitem seus conhecimentos para seu novo grupo. Os Teles acreditam que o Catira é um dom, se renova e se mantem forte com novos grupos e persistentes apoios e acham importantes plantar raízes culturais.
Grupo de Catira Geração por Geração, que começou a se formar na década de 70. Coordenado por Paulo Cury, apaixonado pela tradição e que diz ter nascido para o Catira e que a dança é coisa séria, o grupo traz em sua origem a identidade dos pioneiros.
 
 
MOVIMENTOS TÍPICOS DOS CATIREIROS DE UBERABA
Conservadores das tradições, os grupos de Uberaba são também inovadores na técnica. Romeu Borges, do Catira dos Borges, por exemplo, que há mais de 60 anos dá continuidade e sustentação a este folclore, nos conta que eles incluíram em suas apresentações o “Passo Mexicano”, a “Ficada” originada do Prata, o “Miolo” de Ituiutaba, e o “Passo Goiano”. Essas inovações hoje se tornaram típicas da cidade e são executadas por vários grupos. 
O “Passo Mexicano” é a raspagem dos solados que produz sons característicos, usualmente utilizados entre versos do Recortado, entremeado com o sapateado. 
“Miolo” é quando dois catireiros desenvolvem um intenso sapateado curto, através das alas formadas que os acompanham em palmas, quando então já devidamente em seus lugares, passam a bater palmas, substituído os companheiros que neste momento executam o sapateado. 
“Passo Goiano” é um ritmo de marcha com cadência marcial, em que os catireiros vão dançando enquanto os violeiros entoam versos do Recortado. 
“Ficada” é a batida seca no solo, executada sempre no último verso com os dois pés simultaneamente, característica do término da apresentação.  
Uberaba tem sua peculiaridade no efervescimento do catira, pelos grupos que se formaram e pelos violeiros compositores que também eram poetas. Entrar na memória dos catireiros é extrair sentimentos dos momentos vividos. Quando lembrados, extraem reações saudosistas que por vezes entristecem, mas que também pode traduzir em deleite de um tempo que não volta mais.
 
UMA TRADIÇÃO DE 450 ANOS
O catira, que aparece no cenário rural no final do século XIX, ganha notoriedade e maior número de adeptos no início do século XX. O auge do catira em Uberaba é de um tempo diferente dos dias de hoje, quando o Brasil, mais rural que urbano, espreitava a industrialização e com ela a modernização. É também de um tempo em que o êxodo rural se intensifica e os protagonistas dessa “viagem” ao mundo urbano vêm-se na ruptura da terra natal, o mundo rural, com seus aspectos peculiares ante à incógnita vida citadina, e da desintegração dos laços fraternais construídos aos estímulos da sobrevivência (Cândido, 1982), em contraposição à individualidade da vida urbana.

Para retratar esta realidade, a Fundação Cultural de Uberaba lançou em junho deste ano o documentário “Catira - Uma Tradição de 450 Anos”, com patrocínio da Vale Fertilizantes, parceria do Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, e apoio da Universidade de Uberaba. O documentário fez um mapeamento dos grupos de catira em atividade no país, realizando uma amostragem em 30 cidades de seis estados: Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal.

Congadas e Moçambiques

Congada é uma manifestação religiosa/folclórica de origem africana trazida pelos escravos da etnia banto que habitavam o Congo e Angola e que foram recriadas em território brasileiro. É constituída por cortejos com danças coletivas onde os participantes, cantando e dançando, representam, basicamente, três temas em seu enredo: a vida de São Benedito, o encontro de Nossa Senhora do Rosário submergida nas águas e a representação da luta de Carlos Magno contra as invasões Mouras.

Representa a coroação do rei do Congo, acompanhado de um cortejo compassado, levantamento de mastros e música. Os instrumentos musicais utilizados são de percussão, como a caixa, o pandeiro e o reco-reco. O ponto alto da festa é a coroação do rei do Congo.

Cada grupo de congada denomina-se “terno” e se caracteriza pela cor ou modelo da farda, chapéus de fitas, guizos nos pés, atividades com manejos de bastões e espadas, e alguns grupos exibem exemplares dos Exércitos dos tempos do Império e início da República.  Às vezes possuem reinado, rei, rainha, vassalagem envolvendo parte dramática, com embaixadas e lutas. 

A Congada é uma festa de devoção, um ritual sagrado, que festeja a vida, embora o leigo a ela se associe com grande força. O registro mais antigo da ocorrência de Congos em Minas Gerais é de André João Antonil, que aqui esteve de 1705 a 1706.

A Congada tem uma grande conotação religiosa. A participação da Igreja nas festividades é de apoio tático. O interesse pela devoção cresceu bastante, alargou-se no espaço e no tempo, ganhando devotos em quase todos os lugares. A fraternidade de Nossa Senhora do Rosário e dos santos pretos, entre os quais São Benedito e Santa Efigênia, é constituída, em Minas Gerais, por guardas como: Moçambique, Congo, Marujos, Catupés, Caboclinhos e outros. Segundo a tradição, todas as guardas surgiram da religião tradicional africana, sendo o Congo a mais velha, seguindo das guardas de Moçambique, de Marujos e outras. 
 
ORIGEM
A Congada é uma prática cultural decorrente das transformações histórico-sociais vividas pelos negros no Brasil. Ela se afirma como uma experiência de reconstrução da identidade negra. É importante ressaltar que esse processo de reconstrução da cultura negra, ocupa o único espaço público institucional no qual os negros podiam se organizar e se manifestar: as Irmandades, espaços criados dentro da Igreja Católica. 

Segundo conta a história, o imperador do Congo foi vendido como escravo para o Brasil e veio a Minas Gerais junto com outros mais de 400 negros. Na viagem, o escravo que fora batizado com o nome católico Francisco, perdera sua mulher e seus filhos, dentre os quais apenas um sobreviveu.

Instalado em Vila-Rica, trabalhou nas minas de ouro e, somando o trabalho de domingos e dias santos, escondia pó do metal precioso entre os cabelos, conseguindo realizar a economia necessária para comprar a sua libertação e a de seu filho. Em comemoração, Chico Rei, como ficaria conhecido, celebrou sua libertação dançando na igreja, marcando o início de uma tradição que une temáticas religiosas compostas por ritos africanos e católicos, unidos ao ideal universal da liberdade. 

Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro, define que a dança lembra a coroação do Rei do Congo e da Rainha Ginga de Angola, com a presença da corte e de seus vassalos. Sua difusão vem do século XVII e a Festa é também conhecida pelos nomes de Congadas, Congada, Congado ou Congo. Suas riquezas folclóricas e históricas estão em sua formação originada em três culturas diferentes: África, Brasil e Portugal, miscigenando tradições históricas, usos e costumes africanos e influências ibéricas em relação à religiosidade.

A distribuição das congadas no Brasil demonstra que essa festividade é prática dominante no sudeste brasileiro, especialmente nos Estados de Minas Gerais e São Paulo. Sua presença está relacionada à participação de negros de origem banto nas diferentes fases da economia do sudeste. 
 
COMPOSIÇÃO
Os tipos de “ternos” variam de acordo com sua função ritual na festa e no cortejo:
 
Moçambiques, Catupés, Marujos, Congos, Vilões. O termo “terno” se refere aos grupos que participam da Congada, compostos por pessoas que são, em sua maioria, parentes consanguíneos ou que se dizem parentes. Entre os papéis importantes desempenhados por eles estão os de levar a imagem da santa, conduzir o reinado durante a procissão e fazer o descerramento dos mastros que encerra a festa.
 
Os Congos – assim são chamados os participantes da congada – são escolhidos entre os membros da comunidade negra de acordo com o nível de interesse e grau de parentesco com a família do Rei. Os papéis são distribuídos de acordo com o desenvolvimento do congo no grupo, obedecendo a uma evolução proporcional a hierarquia da congada – da corte para os súditos: Rei, Rainha, Embaixador, Fidalgos, Duque, Cacique, Secretário, Guias, Conguinhos e músicos.
 
EVOLUÇÃO 
Na organização das festas e rituais há diferenças de status entre homens e mulheres. Os homens podem tocar os instrumentos e dançar. Muitos deles ocupam o lugar de capitão. Frequentemente, as mulheres dançam e seguram as bandeiras que simbolizam o terno ao qual pertencem. Elas também são responsáveis pelo preparo dos almoços coletivos e pela produção das roupas.  As mulheres desempenham papel chave nas famílias que compõem os ternos, o que é característico das famílias africanas. 

Nos bastidores da festa ocorre um ritual católico como o cortejo, a procissão, a homenagem à santa e a fé cristã. Mas, ao longo do ano ocorrem atividades antes e depois da festa como a Alvorada, espécie de ritual, feito ao amanhecer entre os componentes do terno, e os almoços coletivos que ocorrem no dia da festa.

A rede social que se estabelece dentro dos ternos está baseada no parentesco. Mesmo quando não são parentes consanguíneos, os componentes dos ternos se dizem parentes. As relações constantes seguem transmitindo a Congada de geração a geração.

Certos rituais, como a Alvorada, atua em alguns ternos como um fecha corpo tendo a finalidade de proteger contra o Exu, um espírito que pode atrapalhar a festa. Costuma-se também levar os bastões dos capitães a Centros de Umbanda ou Candomblé para serem abençoados e carregados de energia que é transmitida aos dançadores.
 
CONGADA EM UBERABA
Em Uberaba, tanto a Congada como o Moçambique aparecem nas comemorações religiosas ligadas a São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e no dia treze de maio em comemoração à Abolição da Escravatura. 

O encerramento do cortejo com a celebração de missa é realizado na Igreja de São Domingos. A presidência da Irmandade é hereditária e “os ternos” só recebem carta de comando, espécie de ordem para participar dos festejos se estiverem filiados a ela.

Esta prática tem grande relevância para os afrodescendentes, pois constitui uma forma de recuperação de seu patrimônio cultural. Atualmente, em Uberaba, aproximadamente 22 ternos compõem este ritual. Entre eles, cinco são de Moçambiques: Nicolau Mateus, Zumbi dos Palmares, Cruzeiro do Sul, Nossa Senhora do Rosário, Camisa Verde. Oito são ternos de Congada: Minas Brasil, Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, da Paz, José do Patrocínio, Penacho, Batalhão do Norte I e II, Carijós, Santa Isabel. Existem ainda dois ternos de “vilões”: Honorato e Carrim Taia e um grupo de Afoxé Mamãe Ogum. Ternos das cidades vizinhas são convidados para participarem da festa. (Revista do Arquivo Público de Uberaba, nº 4/ 1999). O cortejo que em Uberaba acontece no dia 13 de maio, executa coreografias, jogos de agilidade e de simulação guerreira, como a dança de espadas.  

As evoluções são divididas em 12 partes: desfile inicial; fila do trono; dança dos fidalgos; a chegada da embaixada da rainha de angola; entrada do embaixador; declaração de guerra; segunda guerra – luta entre fidalgos do congo e gente de angola – prisão do embaixador; chegada dos prisioneiros à corte do congo; perdão real; entrega da embaixada; despedida do embaixador de angola; desfile final de confraternização. Após as cerimônias realiza-se uma festa com baile para encerramento. 

«O tempo da festa tem sido celebrado ao longo da história dos homens como um tempo de utopias. “Tempo de fantasias e de liberdades, de ações burlescas e vivazes, a festa se faz no interior de um território lúdico onde se exprimem igualmente as frustrações, revanches e reivindicações dos vários grupos que compõem a sociedade»     (Priore 1994, p. 9)
 
Conclusões
Sem uma explicação melhor e mais aprofundada do significado de tudo que se refere aos ritos africanos e ibéricos adaptados ao Brasil, dificilmente se poderá compreender ou gostar da Congada. Cada figurante, cada veste, cada cor, cada bandeira, tudo representa e simboliza algo, um sentido.

Mestres na arte do improviso, em rimas, canções e louvações, Congadeiros celebram a divindade pelas dádivas que receberam, sobretudo sua liberdade de expressão e o reconhecimento popular de seu folclore. 

A beleza dos cantos com complexas divisões de vozes, a percussão em caixas-de-congo (tambores), as alegorias e fitas em belíssimos chapéus, as roupas bem coloridas, suas bandeiras santas, pandeiros, sanfonas, mastros, rei e rainha conga. Tudo isso aliado ao grande número de participantes é algo de grande valor cultural em nossa cidade e representa muito para o Brasil.

A Congada é um folclore com sólida tradição em nossa cidade, o que demonstra a tenacidade de um povo que passou por provas duríssimas séculos atrás em terras brasileiras. Cabe às novas gerações buscar a compreensão de tudo aquilo que constitui essas práticas tradicionais que são bases da formação cultural brasileira. 

Para isto é fundamental que consigam discernir tudo aquilo que há de velado e revelado em suas entrelinhas, desde a expressão alegre, traduzida em danças e canções diante do ideal da liberdade, até a devoção religiosa e o pagamento das promessas, que demonstram a miscigenação racial, cultural e religiosa que constituem o que chamamos de Brasil. 
 
Fontes: Dicionário do Folclore Brasileiro - Câmara Cascudo; Jangada Brasil; Congada: Ritmos, cores e sons, de Pedro Delfante; Instituto ABC. Contribuições: Antonieta Borges Lopes.